domingo, 22 de janeiro de 2012

Capítulo 1


A guerra havia terminado por completo. Agora, todos os bruxos estavam no Salão Principal, cuidando dos feridos, consolando parentes dos mortos na batalha e fazendo suas últimas despedidas aos mortos. O clima de tristeza predominava no ar e não havia outro som a não ser de choros e dor.
Draco Malfoy estava sentado ao pé de uma das escadas, atrás de uma pilastra. Estava com os cabelos louros sujos de poeira e suas vestes pretas estavam acinzentadas por causa do granito. Não queria se juntar aos outros, pois sentia vergonha. Vergonha por ter estado sempre no lado errado. Mas não era sua culpa por inteiro. Draco sempre sofrera influência de seu pai, Lúcio Malfoy, então, o que ele poderia fazer? Seu pai sempre dizia que Draco seria um Comensal da Morte tão fiel junto ele à Voldemort. Apenas Narcisa, mãe de Draco, não aprovava a idéia, mas não contrariava o marido.
Enquanto estava sentado, Draco pensava em como tudo poderia ter sido diferente se ele não tivesse sido daquela maneira. Poderia ser amigo de Harry, Rony e Hermione, algo que sempre quis ser, mas nunca admitir aos outros. Tentava manter sua posição de um legítimo sonserino e conseguiu permanecer assim por sete anos. Agora, sua máscara havia caído para sempre e ele tentava mudar seu eu.
Algumas pessoas começaram a sair do Salão Principal e Draco se encolheu contra a pilastra. Não queria que o vissem ali. Então, discretamente, ele ergueu-se e subiu as escadas em direção ao outro andar. Seus olhos azuis vagavam com tristeza pelo chão, paredes e alguns andares destruídos. Uma dor apertou seu peito. Tanta destruição, tanta dor, tanta tristeza pairando no ar de um ambiente que sempre fora alegre e mágico.
Em um dos corredores do segundo andar, Draco ouviu um choro vindo do armário de vassouras. Intrigado com quem poderia ser, ele caminhou lentamente até lá. A porta estava entreaberta e Draco a empurrou lentamente, fazendo um pequeno rangido. Dentro do armário, uma garota estava sentada no chão, com os braços envolvendo suas pernas e a cabeça baixa. Seus cabelos eram um véu negro e liso encobrindo-a.
-- Posso lhe ajudar? -- perguntou Draco, lenta e suavemente para a garota. Ela virou o rosto para ele, assustada. Seus olhos estavam vermelhos e lacrimosos e a face delicada estava totalmente molhada pelas lágrimas. Uma cicatriz sangrenta cortava uma de suas bochechas e terminava no lábio inferior.
-- Q-quem é você? -- gaguejou ela.
-- Draco. Draco Malfoy. -- ele se agachou ao lado dela. -- E quem é você?
-- A-Astoria... Astoria Greengrass. -- respondeu ainda com tom de voz triste. -- Somos da mesma casa.
-- Sonserina também? -- perguntou Draco, surpreso.
Ela assentiu.
-- Eu sempre o via na masmorra com dois caras grandões, Crabbe e Goyle, não é?
Por um momento, a garota deixou a tristeza de lado. Draco até pôde ver um esboço de um sorriso surgir entre seus lábios rosados, mas então, ela voltou à expressão de tristeza, sem chorar dessa vez.
-- Mas o que houve com você para que ficasse assim? -- perguntou Draco.
-- Minha irmã, Dafne Greengrass. Ela... ela... morreu durante a batalha.
Então, Astoria caiu no choro mais uma vez, escondendo o rosto com as mãos pálidas e delicadas. Sem saber o que dizer-lhe, Draco abraçou-a e afagou seus cabelos maios, que tinham um leve aroma de alcaçuz. Astoria abraçou-o involuntariamente e chorou em seu ombro. Draco não se importou nem um pouco com as lágrimas de Astoria umedecendo seu ombro. O que ele mais queria fazer agora era protegê-la, acima de tudo. Ele sentia que tinha a obrigação de fazer isso.
Permaneceram abraçados por um bom tempo, até Astoria parar de soluçar e começar a dizer com a cabeça baixa:
-- Dafne era uma irmã muito boa para mim, apesar de me tratar sempre mal. Eu nunca entendi o porquê dela agir assim comigo, com ignorância e rispidez. Ela e Pansy Parkinson eram amigas inseparáveis.
-- Eu via isso. -- disse Draco. -- Todas as vezes que Pansy não estava ao meu lado, eu a via com uma garota loira de cabelos curtos. Pansy e Dafne ficavam conversando na masmorra todo dia, e não só lá, mas também durante as refeições e aulas.
-- Sim, elas sempre concordavam em tudo. -- admitiu Astoria. -- Nunca haviam brigado em todos esses sete anos de amizade, até a noite de hoje. -- ela suspirou pesadamente e prosseguiu: -- Quando os alunos da Sonserina foram mandados a se retirarem do Salão Principal, Dafne reprovou a atitude de Pansy diante de todo o salão ao denunciar Harry Potter à Você-Sabe-Quem. Elas discutiram e Dafne resolveu lutar a favor de Hogwarts. Eu tentei impedi-la quando ela estava saindo da masmorra, mas ela me disse: “Fique em segurança, por favor, Astoria. Apenas me prometa.” e eu perguntei o porquê, mas ela apenas deu um aceno breve e saiu, a caminho da batalha. Foi a última vez que a vi com vida.
Astoria parou de falar. Seu silêncio já mostrava o que poderia vir a seguir, pensou Draco. Ele esperou pacientemente enquanto ela olhava para o teto do armário, tentando impedir as lágrimas de rolarem de seus olhos verdes.
-- Quando eu estava descendo as escadas da torre leste, onde eu tinha ido lutar também, vi um corpo estirado no chão entre poeira e pedras de granito. Vi que era uma garota e que tentava vagamente se mexer. Corri até ela e reconheci seu rosto. -- Astoria começou a chorar novamente, mas continuou. -- Dafne estava com a cabeça apoiada em um dos braços e tinha um grave corte na cabeça que atravessava sua testa. Tentei retirá-la dali, mas Dafne ainda teve forças para dizer: “Não, minha irmã, não faça isso. Eu procurei a salvação de Hogwarts e este é o preço pela batalha.” Ela segurou minha mão e disse com lágrimas nos olhos: “Desculpe se eu sempre a tratei mal, Astoria. Eu tinha inveja de você. Inveja por sempre ser a querida por nossos pais, a mais especial da família. Espero que me perdoe um dia.” Então, seus olhos fecharam... Para sempre.
Astoria chorou e Draco a amparou mais uma vez. Ele estava surpreso por tudo que Astoria havia passado, e não fora pouco. Ele não perdera nenhum parente na batalha e Astoria e tantos outros haviam perdido seus amigos e entes queridos. Todos morreram por um objetivo: salvar Hogwarts e destruir as Trevas que lá haviam.
-- Sei que é difícil a situação que está passando, Astoria. Mas, pense, acha que Dafne queria vê-la chorando no armário de vassouras por sua morte?
-- Não se...
-- Não. Ela não queria te ver assim. Ela morreu por uma escolha que fez e não se arrepende, tenho certeza.
-- A-acho que tem r-razão. Mas o que posso fazer?
Draco teve, subitamente, uma idéia.
-- Venha comigo.
Draco se levantou, pegou a mão de Astoria e a ergueu. Irromperam pela porta do armário de vassouras e caminharam apressadamente na direção ao local onde estava o corpo de Dafne, na escadaria depois da torre leste. Por mais que não entendesse o motivo de Draco estar levando-a para lá, Astoria o seguiu.
Quando chegaram a escadaria cheia de entulhos e poeira, Draco viu o corpo estirado de Dafne. Seus cabelos louros estavam sujos e amarrados em uma trança, com alguns fios soltos. Suas vestes de aluna da Sonserina estavam cinzentas e, em alguns lugares do suéter, cortadas. Uma poça grande de sangue estava embaixo de sua cabeça, que pendia para o lado. Os olhos, verdes como os de Astoria, abertos e sem foco olhavam o vazio.
Draco e Astoria agacharam-se ao lado do corpo inerte e Astoria soluçou.
-- Eu não pude retirar o corpo daqui porque haviam muitas explosões neste andar. Por isso, me escondi no armário de vassouras e esperei acabar tudo para poder vir aqui depois.
Astoria ficou frente a frente com a irmã morta e, suavemente, fechou os olhos dela. Agora, Dafne parecia estar apenas dormindo um sono profundo se não fosse o horrível corte na testa e na cabeça. Draco a pegou com cuidado e começou a descer as escadas.
-- O que está fazendo? -- irritou-se Astoria, correndo atrás de Draco. Ele apenas parou e disse por cima do ombro:
-- Vou levá-la para o Salão Principal, onde estão cuidando de todos, mesmo os mortos.
Astoria abaixou a cabeça e hesitou, ficando no lugar. Parecia que algo que Draco lhe dissera tivera um efeito nela. Questionando-se, ele resolveu perguntar:
-- Você não vem?
-- Sim. Estou logo atrás de você.
Eles retornaram a caminhada. Seus passos não ecoavam no chão, devido aos cascalhos, fazendo-os parecerem duas sombras da guerra caminhando pelos destroços do castelo, sendo uma delas, carregando um corpo.
Draco e Astoria chegaram no salão rapidamente. As coisas não estavam diferentes por lá. Ainda havia uma fila interminável de cadáveres cobertos por lençóis brancos em um canto do salão. Em cada corpo, amontoados de pessoas choravam sobre seus entes queridos. Alguns tratavam dos feridos em macas e bancos do salão, colocando ataduras intermináveis e ungüentos das mais variadas cores e odores. Alguns, para aliviar a tristeza, bebiam cerveja amanteigada e uísque de fogo até não agüentarem mais, a maioria caindo nos chãos e bancos, adormecidos. Tinham esperança de que tudo fosse um pesadelo e que todos os seus amigos ou familiares estivessem vivos quando acordassem, pensou Draco.
Ninguém prestara atenção nos dois que chegavam no salão e Draco ficou grato por isso. Não queria chamar a atenção depois de tudo o que fizera, tudo o que passara. Chegando perto de Madame Pomfrey, que aplicava um ungüento verde na perna direita e fraturada de um estudante da Lufa-Lufa, Draco disse:
-- Madame Pomfrey? Poderia nos ajudar?
Ela ergueu seus pequeninos olhos azuis por baixo dos óculos e lhe disse com a voz rouca:
-- Coloque-a ali. -- apontou para uma maca vazia. Com muito cuidado, Draco colocou o corpo de Dafne na maca e se afastou.
Astoria se aproximou da irmã e pegou sua mão, acariciando-a de leve. Começou a sussurrar coisas para Dafne, como se conversasse com a irmã, mas não obteve resposta alguma. Draco achou melhor deixá-la a sós com a irmã e ele caminhou para fora do salão.
-- Draco! -- uma voz o chamou e ele virou o rosto para ver quem era.
Ronald Wesley e Hermione Granger vinham em sua direção, ambos sérios e de mãos dadas. Draco não queria ter olhado para as mãos dos dois tão entrelaçadas, mas ele já sabia: Rony e Hermione estavam namorando. Por mais que não quisesse aceitar isso, ele tentou ignorar.
-- Nós o vimos chegando no salão. -- disse Hermione. Delicadamente, ela perguntou:
-- E de quem era o corpo?
-- Dafne Greengrass. -- ele disse friamente.
-- Foi uma atitude... legal a sua, Draco. -- Rony disse, com um fraco sorriso nos lábios. -- Estava ajudando a irmã de Dafne, não é? Astoria?
-- Sim, eu estava.
Hermione deu uma rápida olhada nos olhos de Rony e este deu de ombros. De repente, algo inesperado aconteceu. Hermione veio até Draco e o abraçou fortemente. Ele retribuiu o abraço caloroso da garota. Por alguns momentos, ele sentiu-se feliz pela primeira vez depois de tanto tempo. Draco fechou os olhos. Era como se o sol que irradiava naquela manhã pelas janelas no salão, tocasse-o e aquecia-o, tirando todo o rancor, ódio e tristeza que sentia. Draco poderia ficar abraçado com Hermione por muito tempo, até mesmo por dias.
-- Não sentimos raiva de você, Draco. -- ela disse, depois que se soltaram. Ele apenas assentiu, triste.
-- É, cara. Por mais que você tenha sido um boboca por tantos anos...
-- Rony!
-- .... eu não guardo rancor algum de você. Nem eu, nem Harry e nem Hermione.
-- Obrigado.
-- Bem, agora temos que ir. -- disse Hermione. Ela deu a mão de novo para Rony e ambos acenaram para Draco. -- Esperamos vê-lo logo. -- e sumiram na multidão.
Draco deu um suspiro e virou-se encaminhando-se para monde estava Astoria. Para sua surpresa, ele viu que a garota o observava com o olhar fulminante em seus olhos verdes e virou o rosto novamente para a irmã. Draco foi até ela, curioso com sua reação e perguntou:
-- Astoria? O que foi?
-- Nada. respondeu ela secamente, sem olhar para ele. -- Vai lá voltar para a sua amiguinha, vai.
-- Hermione não está mais lá e ela não é minha amiga. -- disse ele calmamente, mas Astoria permaneceu imóvel e ignorando-o, acariciando a mão de Dafne pensativamente.
Draco deixou-a com sua irmã e encaminhou-se para fora do salão principal. Não tinha mais nada o que fazer ali em Hogwarts. Astoria estava bem, sendo tratada por Madame Pomfrey e pelos outros curandeiros do St. Mungus. Os outros não precisavam de seus cuidados, afinal, ele os ignorara durante todos seus anos em Hogwarts e agora Draco se arrependia amargamente disso. Poderia ser mais um dos alunos ali no salão, cuidado de seus amigos feridos ou consolando os que tiveram parentes ou amigos mortos. Mas não podia fazer isso. Draco seria sempre conhecido e mencionado como um aluno arrogante da Sonserina e que desprezava a todos.
Com passos largos e decisivos, Draco saiu do castelo e estava caminhando para longe das propriedades de Hogwarts. Ele retornaria para sua casa e diria alguma desculpa aos pais. Com sorte, talvez nem Narcisa ou Lúcio Malfoy lhe perguntassem ou desconfiassem de onde o filho estava.
Caminhando por entre as grossas raízes das árvores da Floresta Proibida, Draco ouviu alguém chamar seu nome ao longe:
-- Draco! Espere um pouco!
Quando virou-se para quer quem era, Draco encontrou Astoria parando ofegante em sua frente, com a mão no coração, recuperando o fôlego. Ela ergueu os olhos verdes e perguntou:
-- Para onde está indo?
-- Vou para minha casa. Não tenho mais nada para fazer aqui. -- ele respondeu friamente.
Hesitante, Astoria deu um passo em sua direção.
-- Você... virá amanhã, para os funerais?
Draco deu de ombros.
-- Talvez sim.
-- Bem, então... te vejo amanhã, Draco! -- Astoria correu de volta ao castelo, despedindo-se de Draco com um breve aceno e voltando à propriedade de Hogwarts.
Desconfiando do estranho comportamento de Astoria, Draco pegou a varinha e então desaparatou da Floresta Proibida.